19/03/2007
A recepção do Papa no Mosteiro de São Bento
Abade fala sobre a espiritualidade
da vida monástica e os preparativos
para acolher Bento XVI
Maria Inês Migliaccio e Filipe Domingues
Durante os dias em que estiver em São Paulo, o Papa Bento XVI irá se hospedar no Mosteiro de São Bento junto de sua comitiva. Na casa dos monges beneditinos, que fica no centro de São Paulo, o Santo Padre irá experimentar um pouco da espiritualidade e da rotina local.
Dom Abade Mathias Tolentino Braga, pai espiritual do Mosteiro, afirma que é grande a responsabilidade de receber o papa: “Ele espera uma renovação da fé, do crescimento da intimidade com Deus. Que todos sejam mais santos, no Mosteiro, em todo o Brasil, e em todo o mundo”.
O abade espera recepcionar Bento XVI ao som do Te Deum, hino litúrgico católico de autoria atribuída a Santo Ambrósio e Santo Agostinho. Ainda na recepção, os monges gostariam de cantar a música Tu es Petro, que remete à instituição da Igreja por Jesus sobre a figura de São Pedro, o primeiro papa. Bento XVI é seu sucessor apostólico.
Após a recepção, é provável que o pontífice celebre uma missa particular na capela do mosteiro. Os religiosos entoarão os cantos em latim, como já é costume na ordem. Segundo Dom Mathias, a música para os beneditinos é incorporada à liturgia com bastante ênfase. Ela é fundamental e faz parte da vocação: “Letras em latim, longe de transmitir algo ultrapassado, alimentam a tradição e fortaleza do rito católico”, diz o abade. Para ele, a língua é precisa no que diz respeito às mensagens das canções: “O latim não é arcaico, é carregado de preciosismo”.
Dom Mathias acredita que, se encarada com espírito de alegria e santidade, a visita do papa também é uma preparação para a Páscoa: “A encíclica Deus é Amor, trata muito do estado de beatitude [que existe em nós]. Ela nos fala muito do Eros, do sofrimento de um Deus que nos ama, reparando o pecado: o amor de um Deus apaixonado, que quer conquistar o amor da criatura. É o Deus que se coloca ao alcance de todos: ‘quando eu for elevado atrairei tudo a mim’”.
O Mosteiro em restauração
Nos últimos dois anos, o prédio do Mosteiro de São Bento vem sofrendo algumas transformações. Neste momento, o objetivo da realização das obras é conciliar mudanças que sejam benéficas para o cotidiano dos monges à passagem do papa pelo lugar. A construção, que já tem praticamente 100 anos, é de grande valor histórico, e por isso tombada pelo patrimônio. O arquiteto que comanda esta restauração é Afonso Risi.
Dom Abade Mathias Tolentino Braga diz que melhorar o ambiente do Mosteiro é algo fundamental e muito positivo para os monges que residem no local. Além de organizarem as melhorias que se fazem importantes, os beneditinos estão formatando um livro de ouro, com os nomes de todas as pessoas que colaboraram materialmente com os gastos para a visita do papa. Isto envolve doações de objetos de louça, toalhas, lençóis, e colaborações voltadas para a arquitetura do local.
Para o abade, toda esta mobilização evidencia a maturidade das pessoas diante da importância dos acontecimentos: “É uma graça espiritual imensa, um sinal de unidade da Igreja”, diz.
O abade
Por trás das vestes escuras e compridas de Dom Abade Mathias Tolentino se esconde um engenheiro eletrônico formado pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Antes de se tornar monge, levava uma vida comum, como qualquer outra pessoa.
Desde 1981, ele participava de grupos de jovens. O sacerdote destaca o papel importante de sua mãe no despertar da vocação. “Desde pequeno observava minha mãe rezando o terço todos os dias. Hoje entendo o profundo significado dessa atitude, que preparou meu caminho para o sacerdócio.”
Até os 25 anos nunca havia pensado em se ordenar padre, mas a frase bíblica “ser sal da terra, a luz do mundo” sempre conduziu sua vida. “Pensei que poderia viver essa máxima com a família, mas percebi que seria em âmbito reduzido para mim”, conta Dom Mathias. “O mesmo aconteceria em uma empresa.”
Ainda nos tempos de estudante de engenharia, costumava ir com freqüência à região da Rua Santa Ifigênia, local conhecido por ser reduto de materiais eletro-eletrônicos. Certo dia entrou no mosteiro e ficou muito admirado. Em 1990, após conhecer melhor o dia-a-dia dos monges, Dom Abade Mathias ingressou na vida religiosa.
Quando tomou contato com o Mosteiro, o jovem se deu conta de que lá poderia agir mais profundamente junto das pessoas e que o alcance de seu trabalho seria maior.
Ao assumir como abade do Mosteiro, Dom Mathias teve em mente que “a Igreja tem de oferecer o que os fortes procuram, mas de tal forma que os fracos não fujam”. Segundo ele, a vida monástica não o fez largar nada, mas acolher o que Deus lhe ofereceu.
Desde a juventude, o abade manteve dois hobbies que sustenta até hoje: a leitura e a fotografia. Atualmente está lendo “O Banquete do Cordeiro: a Missa segundo um convertido”, de Scott Hahn. O livro fala dos detalhes de uma missa, em torno da celebração da Eucaristia. “Em cada eucaristia estamos em comunhão com toda a Igreja”, afirma Dom Mathias.
Quanto à fotografia, ele ganhou um concurso de melhor foto do Vale do Paraíba. A imagem vencedora registra um idoso dando de comer a cisnes brancos, debaixo de uma ponte próxima a um lago da cidade de Praga, na República Tcheca. A foto, chamada de “Cisnes de Praga”, é de 1990.
Além dos gostos pessoais, o caráter oficial do abade também revela muito de sua personalidade: o brasão de Dom Mathias leva a frase em latim Volo quidquid vis, que quer dizer “Eu quero tudo o que tu queres”. Segundo ele, este lema identifica a vontade humana com a vontade de Deus.
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